
E não se sabe exatamente se eram todas as casas. As ruas estavam vazias. Li na internet que a escritora Clarice Lispector celebrava o Natal no dia vinte e cinco, à revelia das vésperas, que falsificam a eterna luminescência da data. As pessoas estão adaptadas a viver de vésperas. O medo do fim é iminente e tem cheiro de cerveja quente e barata ou, quem sabe, um odor horrível de chá de velório, madrugado pelas verdades sem ossos dos bisbilhoteiros — para não se falar outro nome.
Mas a cidade estava vazia. As ruas, silenciosas. Restos de lua sombreavam as calçadas sujas dos bares; impressões vadias dos bêbados. Mas não havia bêbados. As praças permaneciam com pisca-piscas que nada iluminavam: tecnicamente, apenas acendiam e apagavam. Ou então eram luzes paradas, sem sombras, pois quem sombreava a cidade era uma lua que não se via no céu e que, num espetáculo anônimo, evocava fenômenos não classificados pela astronomia.
Nada estava comum. As pessoas estavam em casa. Sem ruas, sem praças, sem bebidas. As calçadas loteavam a humanidade perdida entre goles de uma embriaguez lúcida. As pessoas voltaram para casa, e ainda se ouviam os ecos da voz de um antigo padre que exortava a cidade a guardar o Natal entre glórias e sacrifícios. Mas o verdadeiro sacrifício era aguardar a meia-noite para provar o cadáver do peru marinado por ervas finas. E os cantos de glória, na verdade, eram as músicas reiteradas na voz de Simone anunciando o óbvio: “Então é Natal”.
Mas a cidade estava vazia. Talvez existisse algum miserável dormindo em alguma calçada desconhecida. Mas ele apenas existia na parca oração que, porventura, alguém fizesse em prece por sua sobrevivência. O que restou foi esse cenário: ruas vazias, residências lotadas e, talvez, um mendigo dormindo na rua.
Geraldo Neto.
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