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COLUNA DIREITO E REGIONALIDADES: O que restou do Natal?

Na noite de Natal, as casas da cidade reluziam.

27/12/2025 às 12h51 Atualizada em 27/12/2025 às 13h00
Por: Geraldo Neto
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COLUNA DIREITO E REGIONALIDADES: O que restou do Natal?

E não se sabe exatamente se eram todas as casas. As ruas estavam vazias. Li na internet que a escritora Clarice Lispector celebrava o Natal no dia vinte e cinco, à revelia das vésperas, que falsificam a eterna luminescência da data. As pessoas estão adaptadas a viver de vésperas. O medo do fim é iminente e tem cheiro de cerveja quente e barata ou, quem sabe, um odor horrível de chá de velório, madrugado pelas verdades sem ossos dos bisbilhoteiros — para não se falar outro nome.

Mas a cidade estava vazia. As ruas, silenciosas. Restos de lua sombreavam as calçadas sujas dos bares; impressões vadias dos bêbados. Mas não havia bêbados. As praças permaneciam com pisca-piscas que nada iluminavam: tecnicamente, apenas acendiam e apagavam. Ou então eram luzes paradas, sem sombras, pois quem sombreava a cidade era uma lua que não se via no céu e que, num espetáculo anônimo, evocava fenômenos não classificados pela astronomia.

Nada estava comum. As pessoas estavam em casa. Sem ruas, sem praças, sem bebidas. As calçadas loteavam a humanidade perdida entre goles de uma embriaguez lúcida. As pessoas voltaram para casa, e ainda se ouviam os ecos da voz de um antigo padre que exortava a cidade a guardar o Natal entre glórias e sacrifícios. Mas o verdadeiro sacrifício era aguardar a meia-noite para provar o cadáver do peru marinado por ervas finas. E os cantos de glória, na verdade, eram as músicas reiteradas na voz de Simone anunciando o óbvio: “Então é Natal”.

Mas a cidade estava vazia. Talvez existisse algum miserável dormindo em alguma calçada desconhecida. Mas ele apenas existia na parca oração que, porventura, alguém fizesse em prece por sua sobrevivência. O que restou foi esse cenário: ruas vazias, residências lotadas e, talvez, um mendigo dormindo na rua.

 

Geraldo Neto.

 

Direito e Regionalidades
Sobre o blog/coluna
Geraldo Neto é advogado, escritor e poeta. Bacharel em Direito pela Universidade Federal de Campina Grande. Especialista em Direito Público e Direito Penal. É Procurador Geral do Município de Bernardino Batista. Licenciado em História pelo Centro Universitário Faveni. E-mail: [email protected]. Instagram: @geraldonetoadv.
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