
Assim, a cultura é a síntese de todas as inventividades humanas. Pode ser poesia, pintura, um jarro de cerâmica, uma memória resguardada, um romance, uma música, uma estória de um contador. É um acervo iconográfico que traduz os sentimentos e os cotidianos de um povo.
Uiraúna — terra de sacerdotes, músicos e tantos outros ofícios e talentos — traz em sua veia cultural o ulular de uma música e de uma poesia genuinamente nossa. É preciso preservar tradições em nome da memória e da identidade que nos constituem.
Na noite de ontem, dezenove de novembro, a Escola Municipal Benevenuto Mariano brindou-nos com mais um Sarau, reunindo os três pilares que erguem a nossa Cátedra Cultural: a música, a poesia e o teatro. O mais encantador é que os próprios alunos assumiram o protagonismo — cantaram, manejaram instrumentos, encenaram e declamaram uma ode ao que há de mais essencial para uma cidade e para a claque que resguarda essas antiquíssimas formas de fazer arte. Porque cultura se faz com recursos, mas é sobretudo erigida pelo talento e pelo dom — estes, sim, nativos do ser humano, apenas aperfeiçoados com o tempo.
E o cardápio de artistas foi vasto. Quem iluminou o Sarau foram os próprios uiraunenses. É digno de nota a apresentação da obra do professor Carlos Alves, cuja longa crônica abrilhanta o livro Terra dos Imperfeitos. Em seguida, tivemos o canto suave e expressivo de Laura, filha de Apoena e Júnior, neta de Dr. Laurentino, acompanhada pela engenhosidade de Rubens, filho de Reinaldo do Ônibus, que ao violão revelou não só destreza musical, mas a inteligência inquieta de um jovem historiador.
E como um feliz amplexo de uma noite adornada por um denso véu de estrelas, vieram as declamações de poesias: Drummond, o grito insurgente da poetisa revolucionária Victoria Santa Cruz com seu vibrante “Me Gritaram Negra”, além de Cecília Meireles, Clarice Lispector e tantos outros. Confesso ter sentido falta de Manuel Bandeira e o seu “Vou-me embora pra Passárgada”; de Ariano Suassuna e sua poesia nostálgica Aqui Morava um Rei; de João Cabral de Melo Neto com sua obra dramática Morte e Vida Severina; Augusto dos Anjos com o seu belíssimo poema A Árvore da Serra; O Habeas Pinho de Ronaldo Cunha Lima e a poesia Nômade de Sérgio de Castro Pinto. Mas são meras preferências pessoais, e nem por isso o evento esteve aquém das altas expectativas — todas foram alcançadas.
E nesse culto à poesia, tive a alegria de ouvir um poema meu ser declamado: o poema intitulado de A Vida, que ganhou nova existência na voz e no entusiasmo de um grupo de alunas do Benevenuto Mariano. Ao final, deixo-o aqui na íntegra para apreciação.
Com estas motivações, rendo minhas homenagens à diretora Celma, ostentadora de uma sabedoria salomônica e caligrafia belíssima, de contornos delicados no papel, que administra com sabedoria a Escola Municipal Benevenuto Mariano. Registro também meu reconhecimento à professora e escritora Ana Maria, mentora do Sarau, que reafirma a necessidade de celebrar a poesia na terra que exporta para o mundo talentos incorruptíveis.
Por fim, que Uiraúna continue a protagonizar celebrações em honra à nossa arte, valorizando nossa gente. Afinal, é preciso mostrar ao mundo aquilo que temos de melhor. Fiquem agora com uma das minhas poesias.
A Vida
A vida é simples
De uma ternura requintada
No brilhantismo da estrela d’alva
Serenando o horizonte da madrugada.
A vida é requintada
Pelo sabor das iguarias da dona de casa,
Na poesia do aboiador que invade
Os campos poetizados de saudades.
A vida é abençoada
No terço desbulhado de piedade,
No “Deus me livre” do pecador inocentado,
Nos benditos das beatas do rosário.
A vida é uma fascinação
No melaço das abelhas sem ferrão,
Na água gelada em alumínio ariado,
No beijo certeiro dos enamorados.
A vida não é ilusão
Nas mãos que arrancam legumes do chão,
Na bravura de Maria queimando o carvão,
No suor do meio-dia esperançando o trovão.
A vida, seu caba, é o hoje
De um agora que não espera mais não.
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