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COLUNA DIREITO E REGIONALIDADES: SEMANA SANTA: ENTRE A CARESTIA, O JEJUM E O VINHO

Inicialmente, já dizia o romancista paraibano José Lins do Rego, em sua obra Menino de Engenho, de 1932: “Há muita miséria. Muita fome no povo”.

31/03/2026 às 08h10 Atualizada em 31/03/2026 às 08h21
Por: Geraldo Neto
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COLUNA DIREITO E REGIONALIDADES: SEMANA SANTA: ENTRE A CARESTIA, O JEJUM E O VINHO

E a miséria, até os dias atuais, é uma fonte imorredoura de desigualdade social. Falar em partilha é algo “aviltante” hodiernamente, pois a utopia do comunismo ainda povoa as ideologias de alguns grupos sociais que buscam, no poder, a perpetuação de suas riquezas e interesses. Ainda é válida a frase de Dom Hélder Câmara: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista”. Ou seja, fundamenta-se no comunismo a prática do dever de corresponsabilidade social que cabe a todos, diante da imponência de um Estado omisso.

Além disso, todos se reúnem em torno da Semana Santa. O catolicismo e suas tradições litúrgicas celebram a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Balançam-se os ramos no Domingo de Ramos, lava-se os pés na Quinta-Feira Santa e aclama-se a “aleluia” no Domingo de Páscoa. Fala-se em arrependimento e partilha, em generosidade. A Campanha da Fraternidade da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, para o ano de 2026, relativiza a propriedade privada em prol daqueles que não têm moradia digna, em um verdadeiro clamor ao Estado e aos particulares. Mas é um tema de “comunistas”, afirmam muitos dos que vão à procissão do Senhor Morto na sexta-feira da paixão.

Por outro lado, o jejum do sertanejo é a fome. A própria condição humana é uma penitência na Semana Santa. Poucos comerão a “bacalhoada” na Sexta-Feira Santa. Pergunta-se: pode-se exigir dos pobres o jejum, ou apenas daqueles que possuem fartura? Ao lado do jejum, vê-se a carestia, o aumento exponencial do preço dos alimentos, desde o básico — o ovo de galinha — até chegar ao bacalhau. E todos vendem, e os privilegiados compram, mas é coisa de “comunista” dar esmolas. Alguns chegam a dizer: “Não dê esmolas, essa pessoa tem o Bolsa Família”. Enfim, esquecem-se de que o Bolsa Família é uma renda de integração social para evitar a miséria extrema; é um direito, e não um favor, em um país de penduricalhos para alguns e onde a reforma agrária é apenas um mero embate judicial ou algo relegado a extrema esquerda.

Ademais, em uma semana de penitência e generosidade, lucra-se a preço alto, e a ciência da administração exorta que a redução dos preços seja efetivada por meio de promoções esporádicas após a Semana Santa. E, sem exagero, fazem-se propagandas com o ovo de Páscoa como se Cristo estivesse contido em duas bandas de chocolate, por preços alarmantes, que podem ser divididos em seis vezes no cartão. O que importa é vender e jejuar, e comer o chocolate apenas no domingo.

Neste contexto, as tradições religiosas pedem terços de madrugada, jejum, arrependimento e partilha. E, nesta semana quase santa, indaga-se: as lágrimas da legião de miseráveis não seriam as verdadeiras orações nas desoras do dia? O arrependimento da carestia, por parte do comércio, não seria possível em prol de uma maior integração social daqueles que não possuem recursos financeiros? Há partilha do excedente dos lucros da Semana Santa com os marginalizados?

Por fim, são perguntas de respostas improváveis. A meritocracia do trabalho, sem igualdade de salários e com trabalho escravo, sempre vence. A utilização da ideia do comunismo é sempre mais fácil para justificar a miséria. O Bolsa Família é sempre um argumento para contestar. O que resta? Matar judas no Sábado de Aleluia e comer uma bandinha de ovo de Páscoa, sentado no conforto da sala de casa assistindo a Paixão de Cristo, e o povo a pedir esmolas de porta em porta.

 

Geraldo Neto

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